Moral tributária e Simples Nacional: o que os contadores pensam sobre a conformidade fiscal dos microempreendedores brasileiros?

15-06-2026

A conformidade tributária das micro e pequenas empresas representa um dos principais desafios para a administração pública brasileira. Embora o Simples Nacional tenha sido criado para simplificar obrigações fiscais e incentivar a formalização dos negócios, a permanência nesse regime também pode gerar incentivos para práticas que buscam reduzir artificialmente a carga tributária ou evitar a exclusão do sistema.

Nesse contexto, o artigo de Antonio Lopo Martinez, Tanisia Marinho Rodrigues, Henrique Formigoni e José Maria Dias Filho investiga um aspecto ainda pouco explorado pela literatura: como os próprios contadores percebem o comportamento tributário dos microempreendedores e pequenos empresários diante do risco de exclusão do Simples Nacional.

A pesquisa foi realizada com 404 contadores brasileiros, que avaliaram cenários hipotéticos envolvendo três tipos de práticas potencialmente irregulares: subdeclaração de receitas, manipulação de despesas e utilização indevida de créditos fiscais. Os resultados mostram que, em geral, os profissionais rejeitam essas práticas, atribuindo-lhes baixa aceitabilidade. Entretanto, muitos acreditam que tais comportamentos ainda são relativamente comuns entre os empresários que atuam nesse segmento.

Um dos resultados mais interessantes do estudo é que os contadores do sexo masculino apresentaram maior percepção de que seus clientes estariam dispostos a ocultar informações financeiras, sugerindo diferenças de julgamento ou percepção de risco entre grupos profissionais. Além disso, foram observadas diferenças associadas à orientação política dos respondentes, especialmente em relação à aceitação da subdeclaração de receitas para permanência no Simples Nacional.

Os autores também identificaram que profissionais mais experientes tendem a apresentar menor tolerância a determinadas práticas de evasão fiscal, sugerindo que a experiência acumulada ao longo da carreira pode fortalecer a percepção ética e o compromisso com a conformidade tributária. De forma semelhante, maior conhecimento técnico sobre as regras do Simples Nacional mostrou associação com algumas percepções específicas sobre os cenários analisados, evidenciando a complexidade da relação entre conhecimento regulatório e julgamento profissional.

Outra contribuição relevante do estudo é demonstrar que as diferentes formas de não conformidade tributária estão inter-relacionadas. Os respondentes que demonstravam maior tolerância a um determinado comportamento tendiam também a apresentar maior tolerância a outras práticas semelhantes, reforçando a importância de abordagens integradas de ética profissional e programas abrangentes de compliance.

Sob a perspectiva prática, os resultados oferecem subsídios importantes para órgãos reguladores, entidades de classe e formuladores de políticas públicas. Os autores destacam a necessidade de fortalecer programas de educação ética, desenvolver mecanismos de supervisão profissional e promover uma cultura de integridade que vá além do simples cumprimento formal das obrigações fiscais.

Ao posicionar os contadores como atores centrais na promoção da conformidade tributária das micro e pequenas empresas, o estudo amplia a compreensão sobre os fatores comportamentais que influenciam o cumprimento das obrigações fiscais no Brasil e contribui para os debates nacionais e internacionais sobre moral tributária, ética profissional e governança fiscal.

A REPeC parabeniza os autores pela relevante contribuição científica e convida seus leitores a conhecerem este importante estudo sobre moral tributária, ética profissional e o papel da contabilidade na construção de ambientes econômicos mais transparentes e sustentáveis.