Retenção de caixa e desempenho econômico: diferenças entre empresas familiares e não familiares sob a ótica da riqueza socioemocional

2026-05-28

A gestão de reservas de caixa é uma das decisões mais estratégicas no contexto financeiro das organizações, especialmente em ambientes marcados por incertezas econômicas, restrições de crédito e necessidade de adaptação contínua. Nesse cenário, o estudo de Barros e Tibúrcio Silva contribui significativamente para a literatura ao analisar como diferentes estruturas de propriedade influenciam a relação entre retenção de caixa e desempenho econômico.

A pesquisa parte da Teoria da Riqueza Socioemocional (SEW), abordagem que reconhece que empresas familiares não são motivadas exclusivamente pela maximização de resultados financeiros, mas também pela preservação de fatores como identidade familiar, continuidade do legado, influência no negócio e controle organizacional

Os resultados revelam diferenças relevantes entre empresas familiares e não familiares. Enquanto nas empresas não familiares a relação entre caixa e desempenho segue um comportamento não linear — em que níveis excessivos de caixa passam a prejudicar o desempenho —, nas empresas familiares observa-se uma relação linear positiva, sugerindo que essas organizações conseguem sustentar benefícios associados à retenção de caixa por períodos mais amplos

O estudo também demonstra que o nível de controle e influência familiar exerce papel central nessa dinâmica. Quando a família controladora possui maior participação nas decisões estratégicas e na governança corporativa, os efeitos positivos da retenção de caixa tendem a ser ampliados, favorecendo o alinhamento entre objetivos financeiros e socioemocionais

Outro aspecto relevante refere-se ao conceito de “apostas mistas” (mixed gamble), utilizado pelos autores para explicar como empresas familiares equilibram riscos financeiros e preservação da riqueza socioemocional. A retenção de caixa, nesse contexto, deixa de ser apenas uma decisão financeira tradicional e passa a representar também uma estratégia de proteção da continuidade familiar, da autonomia organizacional e da estabilidade de longo prazo

Além das contribuições teóricas, o artigo oferece importantes implicações práticas para gestores, investidores e conselhos de administração, especialmente em economias emergentes como a brasileira, caracterizadas por elevados custos de financiamento e maior volatilidade econômica.

Ao integrar finanças corporativas, governança e teoria organizacional, o estudo amplia o debate sobre empresas familiares e contribui para uma compreensão mais sofisticada das decisões financeiras em diferentes estruturas de propriedade.

A REPeC parabeniza os autores pela relevância e qualidade do trabalho e convida toda a comunidade acadêmica e profissional a conhecer este importante estudo.