Gerenciamento de resultados e formas de pagamento em fusões e aquisições: evidências sobre escolhas estratégicas no mercado brasileiro
As fusões e aquisições representam uma das principais estratégias de crescimento empresarial, permitindo que organizações ampliem mercados, obtenham ganhos de escala, adquiram competências e fortaleçam suas posições competitivas. Entretanto, essas operações também criam incentivos para que gestores busquem influenciar a percepção do mercado sobre o valor de suas empresas antes da realização dos negócios.
É nesse contexto que o artigo de Elizio Marcos dos Reis e Wagner Moura Lamounier analisa como as empresas brasileiras utilizam práticas de gerenciamento de resultados em processos de fusões e aquisições e de que forma essas estratégias se relacionam com os mecanismos de pagamento adotados nas transações.
A fundamentação teórica do estudo está apoiada principalmente na Teoria da Sinalização, segundo a qual gestores possuem informações privadas que não estão totalmente disponíveis aos investidores e demais participantes do mercado. Em operações de F&A, essa assimetria informacional pode criar incentivos para que empresas adquirentes tentem influenciar o valor percebido de suas ações, especialmente quando pretendem utilizá-las como moeda de troca na aquisição de outras empresas.
Os resultados indicam que as empresas adquirentes brasileiras recorreram principalmente ao gerenciamento por decisões reais, envolvendo ações relacionadas às operações da empresa, como políticas de vendas, despesas e produção. Essas práticas foram observadas de forma mais intensa nos períodos anteriores às fusões e aquisições, sugerindo a tentativa de melhorar indicadores de desempenho e influenciar a avaliação do mercado.
Em contraste, o estudo não encontrou evidências robustas de utilização de gerenciamento por accruals antes das operações. Esse resultado diverge de parte da literatura internacional e sugere que, no contexto brasileiro, as empresas podem preferir mecanismos menos visíveis e mais difíceis de detectar pelos investidores, auditores e reguladores.
Uma das principais contribuições da pesquisa está na análise da reversão dessas práticas após a conclusão das operações. Os autores verificaram que, quando as aquisições são financiadas com ações, as práticas de gerenciamento por decisões reais apresentam reversão significativa no período posterior às transações. Esse resultado sugere que tais estratégias possuem caráter temporário e oportunista, sendo utilizadas para influenciar a percepção do mercado durante o processo de negociação.
Sob a perspectiva prática, os achados oferecem importantes implicações para investidores, analistas financeiros, auditores, reguladores e gestores envolvidos em operações de F&A. Os resultados reforçam a necessidade de avaliações mais criteriosas sobre indicadores operacionais de empresas participantes de processos de aquisição, especialmente quando as ações da adquirente são utilizadas como instrumento de pagamento.
Além disso, o estudo contribui para o avanço da literatura nacional ao analisar simultaneamente diferentes formas de gerenciamento de resultados e sua reversão após as operações, ampliando a compreensão sobre os incentivos econômicos presentes nos processos de fusões e aquisições no mercado brasileiro.
Ao integrar temas relacionados à contabilidade financeira, governança corporativa, finanças e mercado de capitais, o artigo oferece evidências relevantes para pesquisadores e profissionais interessados na qualidade da informação contábil e nos mecanismos que influenciam decisões estratégicas corporativas.
A REPeC parabeniza os autores pela contribuição científica e convida seus leitores a conhecerem este importante estudo sobre gerenciamento de resultados e estratégias de pagamento em fusões e aquisições no Brasil.